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sábado, dezembro 06, 2008

Tragédia em discoteca em Lima


O fogo tomou conta da casa noturna Utopia, localizada no centro comercial Jockey Plaza, na madrugada de sexta-feira, 20 de Julho de 2002, quando cerca de mil pessoas se divertiam no local.
Foto - Pista de dança, antes da tragédia – decoração – muito plástico - Caretas - Edición Nº 1731-25 de julio de 2002
Festa
A boate havia organizado a festa para comemorar seu segundo mês de funcionamento.
O local era novo. Fazia apenas dois meses que havia sido inaugurado. Há quem afirma que se tratava de um pequeno paraíso musical, epicentro da diversão juvenil de fim de semana.
Aquele recanto encravado em um luxuoso centro comercial Jockey Plaza Center, de Monterrico, batizado pelos proprietários como “Utopia”, se converteu em verdadeiro inferno. A moderna e exclusiva discoteca que, aparentemente, dispunha dos mais avançados sistemas de segurança, era na realidade uma bomba relógio. Ninguém podia imaginar que a discoteca seguraria em seu interior, onde pouco antes numerosos casais estavam se divertindo, dezenas de jovens e adolescentes.
Era a chamada “festa do Zôo”. Assim chamado pelos organizadores, com o propósito de atrair mais clientes. Na entrada da discoteca, um robusto cavalo, havia sido colocado como um anfitrião especial. No interior, ameaçadores, permaneciam enjaulados um tigre de bengala e um leão africano.

Discoteca
A estrutura da discoteca parece como um losango, tendo uma das pontas a entrada principal do local. A discoteca também tem quatro bares nas extremidades e um na parte de trás.
As pessoas entram pelo segundo piso e descem a escada. À direita dirigem-se até ao bar VIP e à esquerda descem por uma escada, que as conduzem ao primeiro nível, onde fica a pista de dança circular. Essa escada também se comunica com os demais níveis superiores.
Todas as paredes revestidas com material sintético altamente inflamável. O teto de cada nível, desenhado com especial luxo, forrado com cortiças brancas, apesar do perigo que representava. Além da porta principal, contava com outras três vias de escape, mas nenhuma com sinalização correspondente, para saída de emergência.

Interrupção de energia e falta de luz de emergência
Quando as instalações elétricas paralisaram, o sistema de ventilação deixou de funcionar e causou um acúmulo de fumaça nos ambientes, devido à falta de ventilação natural. O fogo, com ambiente impregnado de fumaça e elevada temperatura, se propagou rapidamente.

Pensaram que o fogo fazia parte da festa
Tudo parecia irreal, parte de uma festa especial. Talvez por isso, o pessoal tomou consciência do perigo muito tarde. Até que tudo começou. Aproximadamente às três horas da madrugada, quando iniciou o incidente, quase 1000 jovens lotavam a discoteca que apenas tinha capacidade para 400 pessoas.
A densa fumaça produzida pelo fogo invadiu os ambientes. Quem se encontrava no local, procuraram escapar. As chamas afetaram as instalações elétricas e as luzes se apagaram. O pânico se apoderou de todos e produziu um barulho infernal. Homens e mulheres, desesperados, caminhando num labirinto, buscando às cegas às saídas.

Falta de coordenação
Ninguém explica porque o pessoal responsável pela segurança, não alertou os bombeiros imediatamente, apesar da situação que ameaçava. Tampouco entende as razões de outros funcionários de segurança de outros estabelecimentos localizados no Jockey Plaza não ajudaram na tragédia.

Controvérsias da origem do incêndio:
1- As causas do incidente não foram confirmadas, mas testemunhas disseram que o incêndio começou quando um malabarista estava fazendo um espetáculo “engolindo fogo”, denominado “pirofagia” e as chamas então atingiram as cortinas do local. O espetáculo contava ainda com vários animais, como um leão e um tigre, que também morreram no desastre aparentemente asfixiados.
Foto - Barman fazendo malabarismo com bebidas com fogos.
Caretas - Edición Nº 1731-25 de julio de 2002
2 - Quando um dos cinzeiros com gasolina especial colocado no primeiro piso acendeu-se, o fogo chegou até o teto do segundo piso. “Na discoteca Utopia era costume de colocar cinzeiros com gasolina nos bares e logo acendê-los, o qual tinha um significado. Disseram-me que, em um dos cinzeiros colocaram muita gasolina e no momento de acendê-los, o fogo subiu até o teto”, revelou o jornalista do Canal N Raul Tola, que se encontrava no local, descartando a versão de que havia malabaristas realizando espetáculo com fogo.

3 - Um jovem que não quis identificar-se, afirmou que o foi o DJ (disk-jockey) da discoteca Utopia, quem iniciou o fogo dentro de sua própria cabina, quando fazia malabarismo com uma pequena taça com fogo. “Antes havia sido realizado na discoteca um espetáculo com fogo, nos bares, controlado, pois os tampos dos bares eram de aço. Eu estava a um metro e meio do DJ, junto com outras duas pessoas e pudermos ver como começou o fogo e logo se desencadeou o pânico”, expressou.
“Na terceira vez que o DJ realizou seu malabarismo, pegou fogo no teto da cabina, começou o inferno”, enfatizou.

Testemunhas
1 - A estudante da Universidade de Lima, Martha Sofia Céspedes Calderón, 19 anos. Afirmou que depois das 2 h da madrugada, o DJ anunciou um novo ritmo frenético, música eletrônica, desenfreada e caótica. “Apareceu próxima a cabine de som, localizada no terceiro nível e começou a dançar, marcando passo da gente. Nesse momento, vi incendiar-se uma tocha. Fiquei impressionada pela originalidade do número”, disse a jovem.
“Além disso, havia anunciado a exibição de um leão”, disse a estudante. Ricardo, o namorado confirmou. “Ninguém teve medo, quase todos começaram seguir o ritmo da música e pularam de seus lugares”. “Não sei em que momento o fogo aumentou e alcançou o teto do terceiro nível. A cabine do DJ também começou a arder”, acrescentou o namorado. Ambos confirmam que no instante que viram o responsável pelo som correr, entenderam que estava em perigo.
“Corremos, corremos, até a porta principal. Tivemos de cruzar um corredor por detrás da cabine de som em chamas. A saída estava bloqueada. Creio que morreria, quando mais pessoas começaram a chegar no mesmo lugar e começaram a pressionar. Não podíamos respirar, não havia luz e o local totalmente ocupado pela fumaça. Deus é grande, creia-me, a porta cedeu e chegamos na área do estacionamento”, disse Marta, exteriorizando também angústia gerada pela experiência.
2 - Saí do local com mais absoluta tranqüilidade. Também não era a maneira mais cômoda, mas foi relativamente normal dentro da situação, confirmou o jornalista do Canal N, Raul Tola, mas muitas pessoas haviam entrado em estado de choque. Ele revelou que o local não contava com medidas de segurança adequadas, e que não havia extintores e as saídas não estavam sinalizadas. “Havia uma série de elementos que me parece não foram levados em consideração no momento de projetar o local. Segundo Raul Tola, muitas pessoas faleceram em conseqüência da asfixia, atropelamento e pisoteamento entre os jovens que queriam sair apressadamente. “A maior parte das pessoas que estava fora do recinto, estava muito nervosa, muitas mulheres chorando e em estado de pânico e outras estavam intoxicadas pela fumaça. Alguns empregados de alguma maneira indicavam a saída, como o pessoal dos bares”, disse Raul Tola.
Foto - O Barman brincando com fogo. Nota-se, também a taça com fogo. Caretas – Edición no 1733 - 8 de agosto de 2002
3 – Segundo relato de uma testemunha, que estava próximo o DJ (disc-jockey)
Quando o DJ realizou seu malabarismo com uma taça com fogo e atingiu o teto da cabina, o inferno começou, enfatizou. Não conseguimos controlar o fogo e começamos a avisar os assistentes do que estava passando, disse. Eu mesmo comecei a alertar o pessoal, gritava desesperadamente, mas não havia portas de saída sinalizadas para que o público pudesse evacuar do local rapidamente. Não vi o DJ com algum extintor para apagar o incêndio. Tampouco observei que ninguém na discoteca pegou um extintor, porque simplesmente não tinha nenhum no recinto. A testemunha expressou; “Creio que se atuasse em tempo, com apenas um extintor teria controlado o fogo na cabina e evitado que propagasse para o teto”.
A testemunha afirmou que tanto foi o desespero dos assistentes que trataram de apagar as chamas jogando bebida e água em garrafa, sem saber que isso aumentava ainda mais as chamas.
“Creio, que se produziu o curto-circuito, porque as chamas propagaram-se em poucos minutos no local”, sustentou. Disse que, muita gente estava se asfixiando no local. “Eu fui um dos primeiros a sair do local, mas a maioria ainda estava no local. Atropelaram-se, caíam, se asfixiaram, aquilo era um inferno e eu não podia fazer nada para ajudar, foi algo horrível, ao fazê-lo, quase não podia respira pela densa fumaça, escutava gritos de dor, era terrível”.
“Tinha gente se jogando do segundo piso pelo desespero de não saber onde ficava a porta de saída”. Além disso, “eu tinha cortado as pernas e o corpo, porque havia vidros jogados no piso por todos os lados”.
“Não havia segurança”, concluiu a testemunha da tragédia. “Apenas havia uma porta em condições para escapar”.

Evacuação de pessoal e emergência
Devido ao elevado número de feridos, as ambulâncias e as viaturas policiais foram insuficientes para efetuar a remoção para os hospitais. Tiveram de utilizar veículos particulares. A evacuação das pessoas iniciou-se às 3 h 15 min da madrugada. Os bombeiros corriam de um lado para outro, tirando macas ou carregando os feridos inconscientes nos ombros e os para-médicos, tratando de reanimar com massagem cardíaca vários jovens que não evidenciavam sinais de vida.

Corpos de Bombeiros e socorristas
Às 3 h 09 min da madrugada, a central de bombeiros recebeu o aviso de emergência. Cerca de 60 bombeiros de diversas regiões de Lima foram deslocados para o local. A polícia e a Unidade Especial de Emergência de Surco mobilizaram um contingente semelhante ao Corpo de Bombeiros, quase na mesma hora, quando a discoteca ardia em chamas, sem controle.
Os bombeiros tiveram problemas operacionais, pois não tinham aparelhos autônomos de respiração suficientes ou máscaras contra gases. A maioria dos socorristas e bombeiros entrou no local utilizando lenços ou o próprio vestuário para se proteger.
A fumaça no local era tão densa que as lanternas ou os refletores não conseguiam iluminar o ambiente. Os bombeiros e as unidades especiais entraram no local em fila indiana e tateando o local. Os bombeiros e os socorristas tiveram que multiplicar esforços e lutar contra o tempo para salvar vidas
A pista de dança da discoteca era especial, tipo anti-stress. Estrutura elevada metálica, revestido em borracha. A borracha altamente combustível foi consumida rapidamente e produziu fumaça altamente tóxica, intoxicando e matando diversas pessoas.
Cerca de 400 pessoas entre bombeiros, policiais e unidades especiais de resgate participaram do resgate.

Balanço de mortos e feridos
Na primeira semana depois da ocorrência:
30 mortes, centenas de pessoas permaneceram internadas em hospitais ou em observações.
Na segunda semana depois da ocorrência:
30 mortes, 15 pessoas permaneceram internadas em hospitais, sendo 10 estados graves em UTI’s e 58 pessoas foram liberadas

Responsabilidade da segurança
José Chueca Romero, diretor do Shoping Center Jockey Plaza, informou que o sistema de segurança do recinto comercial estava em operação e que a administração da discoteca nunca comunicou que haveria espetáculo de fogo.
Ele afirmou:
■ que as portas de saída estavam funcionando sem problema e assim como contavam com extintores e mangueiras em caso de incêndio. Chueca Romero responsabilizou os proprietários da discoteca Utopia pela tragédia.
■ que cada um dos 200 locais possui seu próprio sistema de segurança. Nesse sentido confirmou que são os responsáveis dos respectivos locais que fazem as inspeções para determinar se o sistema de segurança se encontra ou não em perfeitas condições.
■ isso foi uma ocorrência trágica, isolada, em cinco anos de funcionamento do shopping e nuca tivemos um incidente dessa magnitude.

Falta treinamento dos funcionários e equipamentos de incêndio
Foi um desastre anunciado, afirmou o comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários, Tulio Nicolini.
Assegurou que:
■ o local era uma verdadeira bomba relógio que por desgraça explodiu.
■ apesar de que a edificação é moderna, não contava com equipamentos contra incêndios básicos, para enfrentar com êxito uma emergência desse tipo. Existem disposições locais e normas internacionais que obrigam os proprietários de imóveis semelhantes a instalar sistemas de chuveiros automáticos.
■ não tinha procedimentos de evacuação, sinalizações ou portas de saída adequadas, enfatizou.
■ os funcionários do local não estavam preparados para orientar o público e conduzir a evacuação em situação de perigo. E que o centro noturno não era suficientemente amplo para abrigar tanta gente.
■ havia mais de 1.000 pessoas, é uma barbaridade. Ninguém utilizou extintores, conforme puderam verificar os primeiros brigadistas que chegaram ao local.
Ministério Público
O Ministério Público designou Lavander Rivera para assumir a investigação do caso. Lavander Rivera solicitou a intervenção dos agentes da Unidade Contra Incêndios, da Diretoria de Segurança do Estado, com finalidade de estabelecer as causas do incêndio. Ela também inspecionou pessoalmente o imóvel destruído, comprovando que não existia sinalização para as saídas de emergência e tampouco equipamentos contra incêndio. Por esta razão avalia denunciar penalmente os proprietários por “exposição de pessoas ao perigo”.

Falta de coordenação na fiscalização
Um mês antes da tragédia, o Instituto Nacional de Defesa Civil detectou áreas com problemas de saídas em caso de emergência, nas instalações do shopping Jockey Plaza, de acordo com o relatório técnico da segunda região da Defesa Civil.

Problemas relacionados no relatório datado de 30 de junho de 2002.
■ algumas áreas livres e corredores de circulação de pessoal foram invadidos com mercadorias, painéis publicitários e outros objetos, dificultando a saída e evacuação, tanto em situações normais, como em caso de ocorrência de emergência.
■ o centro comercial possui sinalização incompleta; de rotas de fuga em caso de emergência, de segurança e de extintores.

Vários sobreviventes do incêndio confirmaram que a falta de sinalizações; de rotas de fuga no interior da discoteca, assim como a dificuldade de encontrar os extintores, pelos que tentaram apagar o fogo com bebidas, que aumentou ainda mais o fogo e acelerou a tragédia.

A inspeção de segurança foi realizada por Romelio Mejía Rodrigo, inspetor de segurança da Unidade de Prevenção da Segunda Região da Defesa Civil, o fiscal Wilfredo Ureta Torres e o representante da municipalidade Walter Elera Ortigas.

De acordo com as observações mencionadas no relatório técnico, foram recomendadas as seguintes modificações:
■ Revisar a sinalização de segurança nos encontros de vigas e colunas de concreto armado, em cada um dos pisos do shopping.
■ Colocar sinalização que orientem a evacuação até as saídas existentes nos pavimentos ou até as escadas mais próximas.
■ Sinalização e colocação dos extintores em locais que possam ser vistos de qualquer ponto.

Apesar de ter encontrado algumas deficiências nas medidas de segurança do shopping, o relatório técnico da Defesa Civil, conclui;
■ que o local reúne as condições regulares de segurança, em caso de movimentação sísmica (terremoto).
■ em relação a incêndio; o local apresenta condições de segurança suficientes, tais como; extintores e hidrantes.

A Defesa Civil emitiu um outro relatório técnico a respeito da segurança da discoteca e concluiu que não tinha problema.

De acordo com a versão do gerente geral da discoteca, Percy North Carrión, a Defesa Civil havia comprovado o cumprimento das medidas de segurança do local. Embora, os fatos e as versões das testemunhas que sobreviveram à tragédia contradizem as versões de Percy North e da Defesa Civil.

As testemunhas confirmam que a porta principal de acesso estava fechada, também que os cinzeiros continham gasolina (material inflamável) para chamar a atenção do público até o bar, onde se vendia bebidas.
Segundo os sobreviventes, o fogo começou na cabina do disk-jockey, que estava instalada sobre a rota principal de acesso a discoteca.

Resposta da Defesa Civil
A Segunda Região da Defesa Civil afirma que advertiu a discoteca Utopia para providenciar instalações de segurança contra incêndio, extintores e sinalização de segurança, antes de iniciar o funcionamento”.

De acordo com a informação da Defesa Civil, as recomendações mencionadas constam no relatório técnico básico de segurança em Defesa Civil, realizado em 30 de abril, depois de verificar as instalações do local, solicitado pelos diretores da empresa Inversiones García North.

A fiscal Olinda Landavere e funcionários da Defesa Civil comprovaram no local a falta de sinalização de rotas de fuga, a qual as pessoas presentes no local se refugiaram nos banheiros, onde morreram por asfixia e não saíram pelas rotas de fuga.

A Defesa Civil afirma que neste caso violaram as condições de segurança “ao estabelecer um espetáculo com fogo aberto em um lugar fechado, com as dimensões e características inapropriadas”.

Falta de autorização
A discoteca é de propriedade da empresa Inversiones García North S.A.C, representada pelo acionista majoritário e gerente geral Percy North Carrión. O prefeito do distrito de Surco, Carlos Dargent, assegurou que a empresa inaugurou o local sem autorização municipal. “Não tinha licença de funcionamento e nem de construção”, disse Carlos Dargent.
”Não foi aprovado a autorização, por não apresentar as condições de segurança apropriadas”, acentuou o prefeito. Um dos funcionários municipais presentes na conferência de imprensa, afirmou sem dúvida: foi um crime que a discoteca funcione sem autorização municipal.
O prefeito de Surco, Carlos Dargen, jurisdição à qual pertence o centro comercial, afirmou às emissoras de Lima que os proprietários serão processados pelo município pela falta de segurança do estabelecimento.
O diretor da Municipalidade de Surco, Luis Recavarren afirmou que o relatório elaborado pela Defesa Civil, que informava que a Discoteca Utopia, apresentava em condições de segurança, impediu o seu fechamento.

Inspeção realizada após o incêndio
A fiscal Claudia Olinda Lavander Rivera e uma equipe de peritos da Direção de Investigação Criminal realizaram uma nova inspeção na discoteca, constatando:
■ que o local era revestido internamente com material sintético inflamável que, ao entrar em combustão, gerou gases tóxicos mortais.
■ os tetos dos quatro níveis incluíam revestimento de cortiça, material que desintegra ao ser submetido a altas temperaturas, aumentando ainda mais o fogo.
■ todos os pilares de concreto foram decorados com revestimento de acrílico, enquanto o piso estava revestido com material de borracha.

A inspeção permitiu comprovar, também, em que pese o perigo que todos estavam expostos, a quem buscavam diariamente o local para diversões, em todo o estabelecimento, havia apenas dois extintores manuais, os quais não foram utilizados.
Constatou-se, que a inspeção anterior tinha verificado, havia apenas uma sinalização até as portas de saída, a qual tinha indicação em inglês, fato que havia impedido de orientar-se a quem não dominava esse idioma.

Os peritos criminalísticos retiraram amostras de materiais dos setores que foram mais afetados pelo incêndio, assim como daqueles que ficaram intactos, com finalidade de realizar exames de laboratórios correspondentes.

Problemas na fiscalização de discotecas e bares
A Municipalidade de Lima mantém inúmeros conflitos legais com os proprietários de discotecas e bares noturnos que se negam executar medidas de segurança e que poderiam provocar tragédia similar a que ocorreu em Surco, porque são verdadeiras armadilhas mortais. A diretora Municipal de Fiscalização e Controle, Gabriela Adrianzén, informou que até o momento não pode suspender o funcionamento das discotecas Los Botes e Calle devido ao recurso de amparo legal que outorga o poder judicial.
Os locais possuem saídas de emergência inadequadas, em números reduzidos, explicou a funcionária, apenas pode abrigar no máximo 300 pessoas. Embora, nos fins de semana os proprietários permitem ingresso de 600 a 1000 pessoas, colocando em risco a vida das pessoas.

Shopping Center Jockey Club
O shopping iniciou suas atividades em 1997, como maior centro comercial do Peru. Está construído em um terreno de 130 mil m2, localizado no bairro de Hipódromo de Monterrico, no cruzamento das principais vias de acesso da cidade de Lima; estrada Panamericana e a avenida Javier Prado.
O shopping possui cerca 230 lojas comerciais, que proporcionam variedades de produtos e serviços, 12 salas de cinemas e restaurantes. A estimativa de venda anual é de US$ 300 milhões. Cerca de 2 milhões de pessoas circulam mensalmente e efetuam aproximadamente 1,5 milhão de transações comerciais.

Históricos de incêndios em discotecas
16-04-1997, Amarante, Portugal: 13 pessoas morreram, briga entre grupos, incêndio criminoso.
28-10-1998, Gotemburgo, Suécia: Incêndio numa discoteca, com excesso de lotação, com 63 mortes.
25-12-1998, Lima, Peru: Delinqüentes jogam uma bomba de gás lacrimogêneo na pista de dança da discoteca Suárez. A porta principal e a saída de emergência estavam fechadas, morreram nove pessoas
20-10-2000, México D.F., México: Incêndio na discoteca Lobohombo, que não tinha saída de emergência, morreram vinte pessoas.
25-12-2000, Luoyang, China: Cerca de 309 morreram no incêndio numa discoteca no centro comercial Dongdu.
01-01-2001, Volendam, Holanda: 10 mortos e 130 feridos no incêndio na discoteca Het Hemeltje.
01-09-2001, Tokio, Japão: Incêndio na discoteca Mah-Jongg Club, situada no terceiro andar de um edifício. Corredores estreitos e falta de ventilação, provocaram a de 44 pessoas.

Fontes: La República - Jueves, 21/25 de julio del 2002 , Caretas – Peru – Edición no 1733 - 2 de agosto de 2002 ABC – Espanha - domingo 21 de julio de 2002, USA Today - 07/20/2002

Comentário:
Nota-se que nesse incêndio na Discoteca Utopia, em Lima, Peru, as deficiências observadas na segurança contra incêndio não fogem dos padrões observados em outros incêndios ocorridos em outras partes do mundo.

O paradigma das deficiências que resultam no incidente são:
1 - Proteção ativa
■ deficiência na proteção contra incêndio (extintores, hidrantes, chuveiros automáticos, brigada de incêndio, procedimento de emergência, iluminação de emergência, etc)
■ sistema de ventilação
2 - Na segurança passiva
■ análise do projeto ( novo ou adaptação de uma edificação com suas deficiências estruturais, obsoletismo)
■ material inflamável empregado
■ revestimento com material inflamável
■ corredores de circulação
3 - Excesso de lotação
4 - Deficiência de fiscalização e aprovação de projetos pelos órgãos envolvidos (municipais, estaduais e Corpo de Bombeiros)
5 - Falta de coordenação dos órgãos envolvidos para aprovação do projeto

A tragédia da discoteca Utopia, lembra a tragédia que ocorreu na Casa Noturna em Minas Gerais, quanto às deficiências . Parece reprise:
■ O Canecão Mineiro não tinha estrutura de emergência para funcionar como casa de shows, segundo o capitão Antônio Rocha, do Corpo de Bombeiros. "Não havia saídas de emergências e outros itens obrigatórios de segurança, como iluminação própria para esses casos e sinalizações de saídas", disse ele. .
■ O Canecão Mineiro, não tinha a licença da prefeitura para funcionar, além da falta de um plano de segurança. A ausência do alvará foi confirmada pelo procurador-geral do município.

Após uma grande tragédia, quer seja no Brasil ou em outros países, sempre indagamos: O que houve de errado? Discutimos quem foi o culpado ou adotamos o jogo do empurra-empurra entre os órgãos envolvidos. E nunca preocupamos com a prevenção. O que pode dar errado?
Passado algum tempo, voltamos à rotina das deficiências dos órgãos competentes, isto é, o ciclo dos quatro F’s;
■ Falta de recursos dos órgãos responsáveis,
■ Falta de fiscalização,
■ Falta de aplicação das normas de segurança e
■ Falta de prevenção.

Exigência básica de segurança para discotecas conforme normas internacionais

1-Extintores e hidrantes
2-Sistema de chuveiros automáticos (sprinkler)
3-Detectores de fumaça interligados ao sistema de iluminação de emergência (rota de fuga)
4-Iluminação de saídas de emergência (portas e saídas)
5-Central de alarme de emergência
6-Portas de emergência com barras antipânico, com sinalização luminescente
7-Locais com lotação acima de 200 pessoas, pessoal com treinamento para procedimento de emergência
8-Portas de entrada e saída, com aberturas suficientes para evacuação pelo menos da metade da lotação
9-Sistema de comunicação de emergência
10-Os estabelecimentos devem possuir selo de certificação e aprovação pelos órgãos municipais e pelo Corpo de Bombeiros

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