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domingo, maio 03, 2009

Painéis coletores de água de nevoeiro

Foto ampliada
Desde longe parecem painéis de letreiros de informações para viajantes. Mas, olhando-os de perto, os painéis são engenhosas construções fixadas em seus extremos por dois pontaletes de eucaliptos de seis metros de altura. Os painéis são malhas de polietileno para estufa, que surgem nos lugares mais inesperados, enseadas, morros e em regiões costeiras no norte do Chile e que estão resolvendo um pouco o problema mais grave no deserto: a escassez de água.

Sua presença na paisagem no norte do Chile está cada vez mais frequente. De noite, esses painéis são envolvidos pelo nevoeiro. O nevoeiro avança desde a costa, e que se origina nas nuvens que há sobre o Pacífico Sul-oriental.

Ao amanhecer, quando o nevoeiro se retira, reaparece a silhueta dos painéis coletores de água de nevoeiro, mas com uma novidade: as gotas desta "água nova" foram capturadas pelas malhas e são conduzidas através de uma canaleta até uma tubulação, para ser destinadas para rega ou irrigação ou ao consumo dos habitantes.

As malhas mais utilizadas são de polietileno do tipo Raschel, fabricadas no Chile, que se vendem por rolo. Cada rolo tem cem metros e, dependendo de sua altura, varia de dois metros a quatro metros, e o preço pode variar entre US$63 e US$126. No Chile é conhecida como “malha de kiwi", porque começou usando como corta-vento nas plantações de kiwi. Atualmente se utiliza para as videiras.

Cientistas em ação
Do seu escritório no Campus San Joaquín da Pontifícia Universidade Católica de Chile, em Santiago, a chefe do Departamento de Geografia Física, Pilar Cereceda, dirige também o Centro do Deserto de Atacama.
Este organismo, que realiza pesquisa interdisciplinar, promoveu projetos como a instalação de painéis em Alto Patache, localidade localizada a 700 metros de altura na região de Tarapacá, no extremo norte de Chile (chamado Norte Grande).
Abastecemos uma pequena casa, que é nossa estação de campo, disse Cereceda e temos uma pequena horta. Nesse lugar estamos fazendo todas as experiências e vendo as possibilidades de dar água a um córrego que está abaixo dos morros, que é Chanavaya. E há outra que se chama Caramucho, em Tarapacá, próxima à nossa zona.
Pilar Cereceda conhece o assunto desde então, porque vem desenvolvendo-o desde a década de 80, tomando como ponto de partida o trabalho do professor Carlos Espinosa Arancibia.
Este professor emérito de física e matemática da Universidade de Chile, criado no norte, foi o pioneiro que concebeu e patenteou estes aparelhos na década dos 60, doando depois a sua invenção à Universidade Católica do Norte e fomentando sua difusão gratuita através da UNESCO.

Sucessos e fracassos
Ainda que se trate de uma grande idéia, não foi fácil expandir. Em parte porque custa organizar as comunidades para que façam à manutenção dos equipamentos.
"Eles adoram a tecnologia, mas alguém tem que o fazer. E alguém tem que manter", assinala Pilar Cereceda.
Outras vezes os habitantes não têm os recursos necessários para pagar o investimento inicial. O governo há poucos meses, definiu uma Iniciativa Nacional de Eficiência Hídrica que, através do Ministério de Obras Públicas, permitiria fomentar este tipo de projetos.

Agricultura
Cerca de mil quilômetros ao norte de Santiago, Hugo Streeter, um ex-pescador de 62 anos que hoje representa os membros ativos da associação Falda Verde, conversa com a BBC através de seu telefone celular enquanto sobe um morro, em Falda Verde, para verificar o bom estado de seus cultivos de Aloe Vera, regados com parte dos 500 a 750 litros de água que produzem diariamente em nove painéis.
Cultivo de tomates em Falda Verde, graças aos painéis. "Funcionamos como associação comunitária sem fins lucrativos”, conta Streeter, parando um momento para recuperar o fôlego e estamos fazendo patrimônio através de um projeto empresarial e não reembolsável.

Importância das condições ambientais
As condições ambientais também influem sobre a qualidade da água recolhida pelos painéis. O nevoeiro não pode estar contaminado, porque então se converte em "nevoeiro ácido".
Pilar Cereceda adverte que "nesse sentido, há um problema muito grave no Chile, porque todas as termoelétricas estão se instalando ao longo da costa, por razões óbvias: carvão, porto e o mar, de tudo. E há muita vegetação na costa que se abastece e se nutre da água do nevoeiro".
"Todas essas centrais termoelétricas no litoral podem produzir um desastre ecológico de grandes dimensões nessa vegetação".

Interesse mundial
Ainda que não haja dados oficiais sobre o uso de painéis no Chile, Pilar Cereceda conhece cada dia novos casos. E a tecnologia se expandiu para o resto do mundo. Destaca o caso da ONG canadense Fogquest, uma organização sem fins lucrativos, que reúne cidadãos, estudantes, cientistas e filantropos com o interesse comum de melhorar a qualidade e acesso de comunidades rurais a água, que desenvolve projetos em vários países.

A estudante chilena Fernanda Rojas ajudou a instalar esses painéis na Guatemala. "E os que ajudaram construir foram os estudantes de Geografia da Universidade Católica", afirma com orgulho, lembrando que durante a década de 90 os alunos viajaram ao sultanato de Omã e mais recentemente estiveram trabalhando no Peru, Yemen, Eritréia, Guatemala e Haiti.

Fernanda Rojas Marchini estuda geografia na Universidade Católica e participou como voluntária, desde 2006, num projeto impulsionado por Fogquest na aldeia de Tojquia, na região de Huehuetenango, no setor noroeste de Guatemala, zona em que vivem famílias descendentes dos maias, em condições de extrema pobreza.
Lá os painéis são conhecidos como Large Fog Collectors, LFC e foram instalados a 3.500 metros de altura. O projeto até o momento beneficiou 27 famílias, um total de 126 pessoas.
A idéia é seguir ampliando sua cobertura. Ainda que há estações secas e chuvosas, conseguiram em média 10 litros de água por metro quadrado (de malha) por dia. Tiraram fotografias de tanques de dois mil litros que se encheram numa só noite de neblina densa. Eles assessoram às famílias para que mantenham funcionando os painéis, no local, por telefone celular ou por correio.

Fonte: BBC News - viernes, 24 de abril de 2009

Comentário:
Esse tipo de painel coletor de água de nevoeiro é o mais simples, mais barato para as comunidades carentes. No Brasil pode ser adaptado paras as regiões montanhosas, em que não há infraestrutra de captação de água para utilização na agricultura familiar e consumo.
No Brasil essas malhas de polietileno são conhecidas como telas Raschel tecidas em ráfia (nas larguras de 2m ou 4m) ou monofilamentos (nas larguras de 1,50m ou 3m), especialmente para sombreamento agrícola, e podem promover sombras desde 30% a 90%, dependendo do tipo de cultura a ser protegida.
Vide o tipo de tela: Malhas
A Fogquest é uma organização não governamental, (ONG) dedicada ao planejamento e execução de projetos de água para as comunidades rurais carentes no mundo.
Para maior detalhe: Fogquest


Vídeo:
Comunidade de uma região da Guatemala


Vídeo:
Eritréia-Ágrica



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